Esperança no meio das tempestades

Além da pandemia e das trágicas consequências do covid-19 na saúde, nas famílias, nos idosos, em lares, com muitas centenas de milhares de mortos no mundo, há toda uma ressonância e implicação económica e social grave, diria mesmo, gravíssima. Muita gente sem emprego, sem dinheiro, sem comida, sem remédios. E esta tragédia parece aumentar de dia para dia, sobretudo em certas zonas, em bairros mais pobres, como aquele em que vivo.
Sucedem-se os pedidos, verdadeiros, de quem tem fome e não tem que comer, de quem perdeu o emprego, de quem não tem para dar aos filhos. E os tentáculos deste “polvo” alastram cada dia. E como miséria atrai miséria, começa a haver mais roubos, mais promiscuidade, mais droga. E se é verdade que a solidariedade de muitos em ajudar tem sido heroica e muito generosa, também é verdade que a alguns desses já começam a faltar meios para ajudar.
Uma paróquia que ajudava cerca de cem famílias vê-se agora, com preocupação e alguma angústia, a ter quinhentas famílias para ajudar, pois a pobreza aumentou. No meio desta tormenta, não se pode perder a esperança, a certeza do amor de Deus, a graça da fraternidade de pessoas sempre disponíveis e prontas a ajudar ainda mais uma vez. Não podemos perder a esperança. O Deus que nos ama está connosco, sempre.
Mas há outras tempestades na humanidade. No belo e grande, rico e variado continente africano encontramos muitas situações de pobreza, de conflitos bélicos, mortes, tráfico de pessoas, sobretudo de raparigas e mulheres. Há guerrilhas e destruição, como em Cabo Delgado (em Moçambique), terra de mártires. E em tantas outras zonas os conflitos, as perseguições, as mortes continuam. Mas África, país de muita juventude, é sinal de esperança. Maria, a Mãe da África, cuida de todos, vela por todos. Colocamos a nossa esperança no Coração da Mãe.
Se passamos ao continente asiático, confrontamo-nos com os graves problemas da Coreia do Norte, China, Índia ou Paquistão, onde encontramos conflitos religiosos, fome, desespero, guerra, atentados à vida e à liberdade humana. Mas sentimos renascer a esperança sabendo que nalguns países há um número crescente de batismos de adultos, de vocações, de desejo de paz e de liberdade. Há sementes de esperança.
Quem para a pensar no imenso continente americano vai detetando muitas situações de ruína espiritual e humana, de milhões de desempregados, de milhões de pessoas desalojadas, de países que, sendo ricos, têm uma imensa quantidade de pessoas pobres, quando não a viver na miséria. Os conflitos partidários, as guerrilhas, a violência dos traficantes de droga, o poder déspota de alguns governantes são contínua causa de ruína e destruição, de dor e de morte. Mas a esperança não morre. Jesus está Vivo e Ressuscitado, Senhor da História. E Maria, que do norte ao sul do continente é venerada em tantos santuários, não vai desamparar o seu povo, os seus filhos.
Vivamos na esperança. Deus está connosco. Não sejamos profetas de mau agoiro, nem “velhos do Restelo”. A fé nos anima a viver em esperança e com desejo de algo novo.
Dário Pedroso, sj
(Fotografia: Adolfo Felix - unsplash.com)
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