Artigo de Dom Walmor

Reaprender a gratuidade
“De
graça recebestes, de graça deveis dar”, eis a recomendação do Mestre
Jesus, dirigindo-se a seus discípulos, pouco antes de enviá-los em
missão. Uma exortação com força de interpelação, remetendo às lições do
Sermão da Montanha, compartilhadas com maestria por Jesus Cristo. A
gratuidade é, pois, virtude essencial. Mas muitos vão considerar atitude
inusitada incluí-la nos protocolos de providências e recomendações para
este momento pandêmico. Provocará questionamento dos que calculam
valores e resultados a partir de dividendos a serem recebidos, de quem
só quer ampliar, sempre mais, a própria lista de itens a serem
consumidos. Reconhecer a importância da gratuidade parece também algo
distante de ambientes do poder marcados pela dinâmica do “toma lá da
cá”. Pode, ainda, ser considerado tema secundário quando são exigidas
urgentes soluções sanitárias e econômicas para enfrentar este momento de
pandemia. Mas a ausência da gratuidade acirra violências, impede o
surgimento de um novo ciclo para a humanidade.
Constata-se o grave
distanciamento da sociedade atual das atitudes orientadas pela
gratuidade quando se verifica, por exemplo, a crescente disseminação de
notícias falsas. Mentiras elaboradas e propagadas em larga escala para
fragilizar instituições, desmoralizar pessoas e incitar o ódio e, assim,
de modo imoral, gerar algum ganho pessoal aos seus disseminadores. Até
discursos sobre o ciclo novo a ser vivido pela humanidade, capaz de
livrá-la do caos, reservam espaço minúsculo ao tema da gratuidade. Mas
essa virtude, de caráter espiritual e humanitário, é determinante.
Contém as propriedades para recuperar o altruísmo que ilumina olhares e
fecunda a inteligência possibilitando mais assertividade na tarefa de
repensar os caminhos da humanidade.
Embora importante, a dinâmica
da gratuidade ausentou-se, velozmente, do cotidiano. Deixou de ser
fermento no coração humano. Chegou-se ao extremo de até se pensar que
gratuidade seja sinônimo de ingenuidade ou falta de esperteza.
Equivocadamente, passou-se a considerar como “virtude” o que se opõe à
gratuidade: conseguir manipular tudo em troca de algum ganho pessoal.
Essa perspectiva egoísta é permissiva até com a distorção de
funcionamentos sociais, políticos, jurídicos, religiosos e culturais
para se conquistar benesses, vantagens, dinheiro. A raiz dos venenos que
corroem o sentido da gratuidade merece ser estudada e conhecida para,
assim, ser devidamente combatida, pois essa virtude é indispensável à
vida cotidiana – a gratuidade gera equilíbrio. Sua ausência alimenta
patologias, a exemplo das mentes dominadas por processos sedutores e
hegemônicos que levam ao consumo sem limites.
Impressiona o
domínio do egoísmo na configuração de hábitos da civilização
contemporânea. As relações são orientadas e estabelecidas a partir de um
jogo de interesses – circunstâncias, situações e pessoas são reduzidas a
instrumentos para se alcançar o que se quer. Um sintoma dessa situação:
filhos que não conseguem cuidar de seus pais idosos e dependentes
porque querem permanecer em situação de conforto. Falta-lhes a virtude
da gratuidade, imprescindível para que uma pessoa seja capaz de cuidar,
sem nada receber. Não conseguem amparar até mesmo quem sempre lhes
dedicou especial cuidado. Da mesma forma, falta gratuidade em muitas
relações de pessoas que se dizem amigas. E a amizade sem gratuidade é
incapaz de inspirar palavras certas, necessárias, com força para
devolver alento, sustentar interioridades, no contexto relacional. Sem
gratuidade, não se enxerga o essencial nos vínculos fraternos, pois as
atitudes deixam de ser orientadas pelos princípios da fidelidade e da
generosidade.
A ausência da gratuidade configura-se em desafio
também na relação do ser humano com o meio ambiente, o que se comprova
nas atitudes que depredam a Casa Comum. Os resultados são esgotamentos
da natureza, que reage agressivamente. A natureza é comprovadamente
pródiga, compartilha seus bens, mas requer que a humanidade reconheça:
tudo está interligado. Exemplo criminoso da falta desse reconhecimento é
a mineração que se coloca no horizonte hermético das lógicas do lucro e
da idolatria do dinheiro. Historicamente, esse tipo de empreendimento
oferece uma lista menor de benefícios diante do muito que extrai da
natureza, provocando tragédias, cenários desoladores, empobrecimentos.
Uma
conclusão precisa ser alcançada: sem reaprender o sentido da gratuidade
a humanidade avançará nos seus adoecimentos pandêmicos gravíssimos,
comprovando que não adianta os “bolsos cheios” de alguns enquanto a
grande maioria vive na miséria. Esse cenário leva ao fracasso
humanitário – é receita homicida. Gratuidade é exigência na pauta das
aprendizagens necessárias à construção urgente de um novo tempo. Nesse
horizonte educativo fundamental, torna-se importante recorrer à maestria
de Jesus, de modo especial aos seus ensinamentos reunidos no Sermão da
Montanha, narrado pelo evangelista Mateus, capítulos quinto ao sétimo. O
Sermão da Montanha apresenta dinâmicas que podem levar mentes e
corações a redescobrirem riquezas indispensáveis. Entre as preciosidades
está o remédio eficaz no combate ao adoecimento da humanidade:
reaprender a gratuidade.
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)
Ilustração: Jornal Estado de Minas