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- ISAÍAS
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1
Título
-* 1 Visão
de Isaías, filho de Amós, sobre Judá e Jerusalém, no tempo de Ozias, Joatão e
Ezequias, reis de Judá.
I.
CORRUPÇÃO DE
UM POVO
Quase tudo perdido! -* 2
Escutem, céus; ouça, ó terra! Javé é quem fala: Eu criei e
eduquei filhos, mas eles se revoltaram contra mim. 3 O
boi conhece o seu proprietário, e o burro a cocheira do seu dono, mas Israel
não conhece nada, o meu povo não entende.
4
Ai de vocês, nação pecadora, povo carregado de crimes,
raça de perversos, filhos renegados. Vocês abandonaram Javé, desprezaram o
Santo de Israel, e voltaram para trás. 5 Se vocês
continuam na rebelião, em que parte ainda podem levar pancadas? A cabeça é uma
chaga só, o coração está enfermo. 6 Da sola dos pés
até o alto da cabeça, nada está sadio: contusões, ferimentos, chagas vivas, não
espremidas nem atadas, nem aliviadas com pomada.
7
O país de vocês está devastado, as cidades incendiadas; as
terras são devoradas por estrangeiros, bem diante dos olhos de vocês. É a
desolação como devastação de estrangeiros. 8 Sião,
a capital, ficou isolada como rancho numa vinha, como choça em meio à plantação
de pepinos, como cidade cercada pelo inimigo. 9 Se
Javé dos exércitos não nos tivesse deixado um resto, seríamos como Sodoma,
ficaríamos parecidos com Gomorra.
Deus não quer hipocrisia -* 10
Escutem a palavra de Javé, chefes de Sodoma; preste
atenção ao ensinamento do nosso Deus, ó povo de Gomorra: 11
Que me interessa a quantidade dos seus sacrifícios? - diz Javé. Estou
farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de novilhos. Não gosto do
sangue de bois, carneiros e cabritos. 12 Quando
vocês vêm à minha presença e pisam meus átrios, quem exige algo da mão de
vocês? 13 Parem de trazer ofertas inúteis. O
incenso é coisa nojenta para mim; luas novas, sábados, assembléias... não
suporto injustiça junto com solenidade. 14 Eu
detesto suas luas novas e solenidades. Para mim se tornaram um peso que eu não
suporto mais. 15 Quando vocês erguem para mim as
mãos, eu desvio o meu olhar; ainda que multipliquem as orações, eu não
escutarei. As mãos de vocês estão cheias de sangue.
16
Lavem-se, purifiquem-se, tirem da minha vista as maldades
que vocês praticam. Parem de fazer o mal, 17 aprendam
a fazer o bem: busquem o direito, socorram o oprimido, façam justiça ao órfão,
defendam a causa da viúva. 18 Então venham e
discutiremos - diz Javé. Ainda que seus pecados sejam vermelhos como púrpura,
ficarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como escarlate, ficarão
como a lã. 19 Se vocês estiverem dispostos a
obedecer, comerão os frutos da terra; 20 mas, se
vocês recusam e se revoltam, serão devorados pela espada. Assim fala a boca de
Javé.
O retorno da justiça -* 21
Como se transformou em prostituta a cidade fiel! Antes era
cheia de direito, e nela morava a justiça; agora, está cheia de criminosos! 22
A sua prata se tornou lixo, o seu vinho ficou aguado. 23
Os seus chefes são bandidos, cúmplices de ladrões: todos eles gostam de
suborno, correm atrás de presentes; não fazem justiça ao órfão, e a causa da
viúva nem chega até eles.
24
Pois bem! Ai de vocês! - oráculo do Senhor Javé dos
exércitos, o Poderoso de Israel. Eu me vingarei dos meus inimigos e pedirei
satisfação aos meus adversários. 25 Voltarei a
minha mão contra você, para limpá-la da sujeira com soda e tirar a impureza. 26
Darei a você juízes como os de antes e conselheiros como os de antigamente.
Então você se chamará cidade da justiça, cidade fiel.
27
Sião será resgatada com o direito, e os repatriados com a
justiça. 28 A ruína virá tanto para os rebeldes
como para os pecadores; os que abandonam Javé perecerão.
29
Vocês se envergonharão por causa das árvores sagradas que
tanto apreciavam; terão remorso por causa dos jardins de que vocês tanto
gostavam. 30 Vocês ficarão como carvalho de folhas
secas, como jardim sem água. 31 O valente se
tornará como estopa, e sua obra como faísca: os dois juntos queimarão, e não
haverá quem os apague.
* 1-5: Para
compreender estes cinco capítulos, é importante ter presente o contexto
histórico (cf., na Introdução ao Primeiro Isaías, a parte referente ao primeiro
período da atividade do profeta). Isaías reage de forma enérgica à disparidade
social que ele constata dentro do seu país, e critica violentamente a falsa
piedade e as práticas religiosas que escondem opressão. Mostra como a
prosperidade não baseada na fraternidade é falsa e provoca um orgulho idólatra,
que leva ao esquecimento de Javé, o único Absoluto, o único Santo.
* 2-9: É, provavelmente, um dos últimos oráculos de Isaías. Foi colocado aqui pelo redator do livro como uma espécie de texto programático de toda a mensagem do profeta: a corrupção do país provocou a invasão do inimigo; salva-se apenas um resto.
* 10-20: Isaías condena a hipocrisia de uma sociedade que se contenta com exterioridades cultuais, sem conseqüência para a vida prática. Deus detesta o culto realizado por uma sociedade que se estrutura sobre a injustiça. O que Deus quer, em primeiro lugar, é uma vida social que defenda os fracos (órfão e viúva) e liberte os oprimidos. E Deus não obriga; ele convida o homem a se decidir: a conversão e a vida ou a teimosia e a morte.
* 21-31: Na cidade de Jerusalém impera a injustiça porque os chefes se corromperam, tornando-se inimigos dos oprimidos e, portanto, do próprio Deus. O profeta vê que a justiça voltará à cidade somente quando os chefes corruptos forem substituídos por governantes e juízes como os de antigamente. Os vv. 27-31 provavelmente são um acréscimo que não se enquadra bem no estilo e pensamento global da primeira parte do livro.
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1,1: Estas referências valem apenas
para Is 1-39. O nome Isaías significa
Javé salva.
* 2-9: É, provavelmente, um dos últimos oráculos de Isaías. Foi colocado aqui pelo redator do livro como uma espécie de texto programático de toda a mensagem do profeta: a corrupção do país provocou a invasão do inimigo; salva-se apenas um resto.
* 10-20: Isaías condena a hipocrisia de uma sociedade que se contenta com exterioridades cultuais, sem conseqüência para a vida prática. Deus detesta o culto realizado por uma sociedade que se estrutura sobre a injustiça. O que Deus quer, em primeiro lugar, é uma vida social que defenda os fracos (órfão e viúva) e liberte os oprimidos. E Deus não obriga; ele convida o homem a se decidir: a conversão e a vida ou a teimosia e a morte.
* 21-31: Na cidade de Jerusalém impera a injustiça porque os chefes se corromperam, tornando-se inimigos dos oprimidos e, portanto, do próprio Deus. O profeta vê que a justiça voltará à cidade somente quando os chefes corruptos forem substituídos por governantes e juízes como os de antigamente. Os vv. 27-31 provavelmente são um acréscimo que não se enquadra bem no estilo e pensamento global da primeira parte do livro.
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19
Uma
política temerária -* 1
«Entoe uma lamentação sobre os chefes de Israel: 2
A sua mãe, quem era ela? Era uma leoa no meio de leões, deitada com os
leõezinhos à sua volta, amamentando seus filhotes. 3 Um
de seus filhotes, ela o criou até que ele se tornou leão adulto. Ele aprendeu a
estraçalhar a presa e começou a devorar gente. 4 As
nações tramaram contra ele, que acabou caindo na armadilha delas. Preso por uma
argola, elas o levaram para a terra do Egito. 5 A
leoa sentiu-se decepcionada, e sua esperança se perdeu. Então ela pegou mais um
de seus filhotes e fez dele um leão adulto. 6 Ele
começou a andar no meio dos leões, e era um animal adulto de verdade. Aprendeu
a estraçalhar a presa e começou a devorar gente, 7 a
derrubar seus palácios e destruir suas cidades. O país e a população toda
ficavam apavorados a um simples rugido seu. 8 Contra
ele reuniram-se as nações, todas as regiões vizinhas. Armaram contra ele sua
rede, e ele caiu na armadilha delas. 9 Depois o
puseram na jaula, com uma argola no focinho. Assim o levaram para o rei da
Babilônia e o conduziram à prisão, para que ninguém ouvisse o seu rugido nos
montes de Israel.
Causa
da ruína do povo -* 10
Sua mãe era como parreira plantada à beira d’água.
Produzia bastante e ficava frondosa, porque havia boa umidade. 11
Seus ramos eram fortes, bons para se tornarem cetros reais. A sua altura
sobressaía por cima das copas, a sua imponência se destacava pela quantidade de
ramos. 12 Ela, porém, foi arrancada com raiva e
jogada ao chão. O vento leste acabou de secá-la e os seus frutos despencaram.
Os seus fortes ramos secaram e foram destruídos pelo fogo. 13
Agora ela está plantada no deserto, em chão duro e seco. 14
O fogo sai do seu tronco e queima seus ramos e frutos. Nela não há mais
ramo forte, um cetro para governar».
*
19,1-9:
Em forma de lamentação, o poema retrata os últimos tempos da realeza em Judá. A
leoa representa o povo, os filhotes são os reis. O primeiro leãozinho (vv. 3-4)
é o rei Joacaz, deposto pelo Faraó Necao e levado para o Egito (cf. 2Rs
20,3-34). O segundo (vv. 5-9) é o rei Jeconias que, depois de reinar três
meses, foi levado para a Babilônia (cf. 2Rs 24,8-17). A política temerária
desses dois, servindo ao jogo das grandes potências, acabou produzindo a ruína
de todo o povo.
* 10-14: A videira é um símbolo clássico do povo de Israel. O motivo que levou esse povo a ter suas instituições arruinadas e a quase perder sua identidade foi a corrupção de seus dirigentes (cf. Is 5,1-7; Mc 12,1-12).
* 10-14: A videira é um símbolo clássico do povo de Israel. O motivo que levou esse povo a ter suas instituições arruinadas e a quase perder sua identidade foi a corrupção de seus dirigentes (cf. Is 5,1-7; Mc 12,1-12).
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18
O profeta desmascara os ídolos
-* 1 Muito
tempo depois, no terceiro ano, Javé dirigiu sua palavra a Elias: «Vá e se
apresente a Acab, porque vou mandar chuva sobre a terra». 2
Elias partiu e foi apresentar-se a Acab. Ora, em Samaria, a fome apertava
cada vez mais. 3 Acab mandou chamar Abdias, que era
o chefe do palácio. Abdias era homem temente a Javé: 4 quando
Jezabel massacrava os profetas de Javé, ele pegou cem profetas e escondeu-os
numa gruta, em grupos de cinqüenta, providenciando comida e bebida para eles. 5
Acab disse a Abdias: «Venha, vamos andar pelo país, procurando todas as
fontes e córregos. Talvez possamos encontrar pasto para sustentar os cavalos e
burros, e não tenhamos que sacrificar esses animais». 6 Acab
e Abdias dividiram entre si a região a percorrer: cada um foi para um lado.
7
Enquanto Abdias caminhava, Elias foi ao encontro dele.
Abdias o reconheceu, caiu com o rosto por terra, e perguntou: «O senhor não é
Elias?» 8 Elias respondeu: «Sou eu mesmo. Vá dizer
ao seu patrão que Elias está aqui». 9 Abdias
replicou: «Que pecado eu cometi para que o senhor me entregue nas mãos de Acab,
para ele me matar? 10 Pela vida de Javé, o seu
Deus: não há nação, nem reino, aonde meu patrão não tenha mandado procurar pelo
senhor. E quando diziam: ‘Elias não está aqui’, meu patrão fazia o reino e a
nação jurarem que não haviam achado o senhor. 11 E
agora, o senhor me manda dizer ao meu patrão que Elias está aqui?! 12
Quando eu sair daqui, o espírito de Javé transportará o senhor não sei para
onde. Eu irei informar Acab, e ele, não o encontrando, me matará. E seu servo
teme a Javé desde a juventude. 13 Por acaso, não
contaram ao senhor o que fiz quando Jezabel estava matando os profetas de Javé?
Escondi numa gruta cem profetas de Javé, em grupos de cinqüenta, e providenciei
pão e água para eles. 14 E agora, o senhor me manda
dizer ao meu patrão que Elias está aqui?! Ele vai me matar!» 15
Elias respondeu: «Pela vida de Javé dos exércitos, a quem sirvo: hoje
mesmo eu vou me apresentar diante de Acab».
16
Então Abdias foi encontrar-se com Acab e contou o que
havia acontecido. E Acab saiu ao encontro de Elias. 17 Logo
que o viu, lhe disse: «Você é a ruína de Israel!» 18 Elias
respondeu: «Não sou eu que estou arruinando Israel. Pelo contrário, é você e
sua família, porque vocês abandonaram Javé e seguiram os ídolos. 19
Pois bem! Mande que todo o Israel se reúna comigo no monte Carmelo, junto
com os quatrocentos e cinqüenta profetas de Baal, que comem à mesa de Jezabel».
20
Acab convocou todos os israelitas e reuniu os profetas no
monte Carmelo. 21 Então Elias se aproximou do povo
e disse: «Até quando vocês vão mancar com as duas pernas? Se Javé é o Deus
verdadeiro, sigam a Javé. Se é Baal, sigam a Baal». O povo nada respondeu. 22
Então Elias continuou: «Fiquei sozinho como profeta de Javé, enquanto os
profetas de Baal são quatrocentos e cinqüenta. 23 Tragam
aqui dois bezerros: vocês vão escolher um. Depois de cortá-lo em pedaços, o
coloquem sobre a lenha, mas não acendam o fogo. Eu vou preparar o outro
bezerro, o colocarei sobre a lenha e também não acenderei o fogo. 24
Vocês invocarão o deus de vocês e eu invocarei a Javé. O Deus que
responder, enviando fogo, é o Deus verdadeiro». Todo o povo concordou: «A
proposta é boa».
25
Então Elias disse aos profetas de Baal: «Escolham um
bezerro e preparem primeiro, pois vocês são maioria. Invoquem o nome do deus de
vocês, mas não acendam o fogo». 26 Então eles
pegaram o bezerro, o prepararam e ficaram invocando a Baal, desde o amanhecer
até o meio-dia, e suplicando: «Baal, responde-nos». Mas não se ouvia nenhuma
voz, nenhuma resposta, apesar de dançarem, dobrando os joelhos, ao redor do
altar que tinham feito. 27 Pelo meio-dia, Elias
começou a zombar deles: «Gritem mais alto; Baal é deus, mas pode ser que esteja
ocupado. Quem sabe teve que se ausentar. Ou então, está viajando. Talvez esteja
dormindo e seja preciso acordá-lo». 28 Então eles
gritavam mais alto e, conforme o costume deles, fizeram talhos no próprio corpo
com espadas e lanças, até escorrer sangue. 29 Depois
do meio-dia, entraram em transe até a hora da apresentação das ofertas. Mas não
se ouvia nenhuma voz, nenhuma palavra, nenhuma resposta.
30
Então Elias disse a todo o povo: «Venham aqui». Todos se aproximaram,
e Elias reconstruiu o altar de Javé, que estava demolido. 31
Pegou doze pedras, conforme o número das doze tribos dos filhos de Jacó,
a quem Javé tinha dito: «Você se chamará Israel». 32 E
com as pedras construiu um altar em honra de Javé. Fez em volta do altar um
canal capaz de conter duas arrobas de sementes. 33 Empilhou
a lenha, cortou o bezerro em pedaços e o colocou sobre a lenha. 34
Depois disse: «Encham quatro baldes de água e derramem sobre a vítima e
sobre a lenha». Eles assim fizeram. Então Elias disse: «Façam tudo outra vez».
E eles tornaram a fazer. Elias voltou a dizer: «Façam isso pela terceira vez».
Eles assim fizeram. 35 A água escorreu ao redor do
altar, e até o canal ficou cheio de água.
36
Chegando a hora da oferta, o profeta Elias se aproximou e
rezou: «Javé, Deus de Abraão, de Isaac e de Israel, todos saibam hoje que tu és
Deus em Israel, que eu sou teu servo e que foi por tua ordem que eu fiz todas
essas coisas. 37 Responde-me, para que este povo
reconheça que tu, Javé, és o Deus verdadeiro, e que és tu que convertes o
coração deles». 38 Então Javé mandou um raio que
consumiu a vítima, a lenha, as pedras e as cinzas, e secou a água que estava no
canal. 39 O povo viu tudo isso e prostrou-se no
chão, exclamando: «Javé é o Deus verdadeiro! Javé é o Deus verdadeiro!» 40
Então Elias disse a eles: «Agarrem os profetas de Baal. Não deixem
escapar nenhum». E eles os agarraram. Elias fez os profetas de Baal descer até
o riacho Quison, e aí os degolou.
41
Elias disse a Acab: «Vá comer e beber, pois já se ouve o
barulho da chuva». 42 Enquanto Acab foi comer e
beber, Elias subiu ao topo do monte Carmelo e se encurvou até o chão, colocando
o rosto entre os joelhos. 43 Depois disse ao seu
servo: «Suba e olhe para o lado do mar». O servo subiu, olhou e disse: «Não se
vê nada». Elias disse: «Volte até sete vezes». 44 Na
sétima vez, o servo disse: «Uma nuvenzinha, do tamanho da mão de uma pessoa,
vem subindo do mar». Então Elias mandou: «Vá dizer a Acab que atrele os cavalos
no carro e desça, para que a chuva não o detenha». 45 Num
instante o céu ficou escuro, com nuvens trazidas pelo vento, e caiu uma chuva
pesada. Acab subiu no seu carro e foi para Jezrael. 46 Elias,
com a força de Javé, amarrou o cinto e foi correndo na frente de Acab até a
entrada de Jezrael.
* 18,1-46: Casando-se com a princesa fenícia Jezabel, o rei Acab adota os costumes e a religião dos fenícios, onde o deus Baal é considerado senhor da fertilidade e da vida. Em vez da vida, porém, vem a seca e, conseqüentemente, a morte para o povo. Elias mostra que a situação é castigo de Javé (cf. nota em 17,1-6). Por isso é perseguido pelo rei. O centro do texto é o confronto de Elias com a autoridade e os profetas de Baal (ideólogos a serviço da autoridade). Cabe ao profeta do Deus vivo desmascarar os deuses falsos e aqueles que o servem, dando ao povo possibilidade para descobrir a verdade e fazer a escolha entre o Deus que dá a vida e os ídolos que provocam a morte. Feito isso, termina o castigo e retorna a vida (chuva).
19
O profeta reorganiza a sociedade
-* 1 Acab
contou a Jezabel o que Elias tinha feito e como tinha matado a fio de espada
todos os profetas. 2 Então Jezabel mandou um
mensageiro a Elias, com este recado: «Que os deuses me castiguem se amanhã, a
esta hora, eu não tiver feito com você o mesmo que você fez com os profetas». 3
Elias ficou com medo, levantou-se e partiu para se salvar. Chegou a
Bersabéia, em Judá, e aí deixou o seu servo. 4 E
continuou a caminhar mais um dia pelo deserto. Por fim, sentou-se debaixo de
uma árvore e desejou a morte, dizendo: «Chega, Javé! Tira a minha vida, porque
eu não sou melhor que meus pais». 5 Deitou-se
debaixo da árvore e dormiu. Então um anjo o tocou e lhe disse: «Levante-se e
coma». 6 Elias abriu os olhos e viu bem perto da
cabeça um pão assado sobre pedras quentes, e uma jarra de água. Comeu, bebeu e
deitou-se outra vez. 7 Mas o anjo de Javé o tocou
de novo, e lhe disse: «Levante-se e coma, pois o caminho é superior às suas
forças». 8 Elias se levantou, comeu, bebeu e,
sustentado pela comida, caminhou quarenta dias e quarenta noites até o Horeb, a
montanha de Deus.
9
Elias entrou na gruta da montanha, e aí passou a noite.
Então Javé lhe dirigiu a palavra, perguntando: «Elias, o que é que você está
fazendo aqui?» 10 Elias respondeu: «O zelo por Javé
dos exércitos me consome, porque os israelitas abandonaram tua aliança,
derrubaram teus altares e mataram teus profetas. Sobrei somente eu, e eles
querem me matar também». 11 Javé lhe disse: «Saia e
fique no alto da montanha, diante de Javé, pois Javé vai passar». Então
aconteceu um furacão que de tão violento rachava as montanhas e quebrava as
rochas diante de Javé. No entanto, Javé não estava no furacão. Depois do
furacão, houve um terremoto. Javé porém não estava no terremoto. 12
Depois do terremoto, apareceu fogo, e Javé não estava no fogo. Depois do
fogo, ouviu-se uma brisa suave. 13 Ouvindo-a, Elias
cobriu o rosto com o manto, saiu e ficou na entrada da gruta. Ouviu, então, uma
voz que lhe dizia: «O que é que você está fazendo aqui, Elias?» 14
E Elias respondeu: «O zelo de Javé dos exércitos me consome, porque os
israelitas abandonaram tua aliança, derrubaram teus altares e mataram teus
profetas a fio de espada. Sobrei somente eu, e eles querem me matar também».
15
Javé disse a Elias: «Pegue o caminho de volta, em direção
ao deserto de Damasco. Unja Hazael como rei de Aram, 16 e
Jeú, filho de Namsi, como rei de Israel. Unja também Eliseu, filho de Safat,
natural de Abel-Meúla, como profeta em seu lugar. 17 Quem
escapar da espada de Hazael, será morto por Jeú. E quem escapar da espada de
Jeú, será morto por Eliseu. 18 Mas eu vou poupar em
Israel sete mil homens: são todos os joelhos que não se dobraram diante de Baal
e todos os lábios que não o beijaram».
A
vocação
profética -* 19
Elias partiu daí e encontrou Eliseu, filho de Safat,
trabalhando com doze juntas de bois. Ele próprio dirigia a última junta. Elias
passou perto de Eliseu e jogou o manto sobre ele. 20 Eliseu
deixou os bois, correu atrás de Elias, e disse: «Deixe-me dizer adeus a meus
pais. Depois eu seguirei você». Elias respondeu: «Vá, mas volte logo. Quem o
está impedindo de ir?» 21 Eliseu afastou-se de
Elias, pegou a junta de bois e a ofereceu em sacrifício. Aproveitou a madeira
do arado para cozinhar a carne, e distribuiu a carne para o seu pessoal comer.
Depois levantou-se, seguiu Elias, e se colocou a seu serviço.
* 19,1-18: O profeta é perseguido quando desmascara as aparências que encobrem uma política opressora. Ameaçado de morte, Elias foge. Sua fuga, porém, se transforma na busca da fonte original, que é a fé javista. O monte Horeb (Sinai), lugar da aliança com Deus, é o ponto de partida para se formar uma sociedade justa e fraterna. Nessa experiência do Deus libertador, o profeta descobre os próximos passos a dar: reunir as pessoas fiéis ao projeto de Javé, criar um novo quadro político, e providenciar um substituto para a sua missão. * 19-21: O manto simboliza a atividade profética: jogando-o sobre Eliseu, Elias o escolhe para acompanhá-lo. A missão profética é empenhativa e supõe que a pessoa a coloque, em primeiro lugar, acima dos próprios bens, família e trabalho.
- ANTIGO TESTAMENTO
- PRIMEIRO E SEGUNDO REIS
- PRIMEIRO LIVRO DOS REIS
- PRIMEIRO E SEGUNDO REIS
20
A
autoridade não pode ser
arbitrária -* 1
Ben-Adad, rei de Aram, reuniu todo o seu exército e,
acompanhado de trinta e dois reis vassalos, subiu com cavalos e carros, cercou
e atacou Samaria. 2 Mandou até a cidade emissários
para Acab, rei de Israel, 3 com a seguinte
mensagem: «Assim diz Ben-Adad: Entregue-me a prata e o ouro; fique com suas
mulheres e filhos». 4 O rei de Israel mandou esta
resposta: «Seja como vossa majestade ordena. Eu lhe pertenço com tudo o que
possuo». 5 No entanto os mensageiros voltaram com
outra mensagem: «Assim diz Ben-Adad: Eu lhe ordeno que me entregue a prata e o
ouro, junto com suas mulheres e filhos. 6 Amanhã, a
esta hora, enviarei até você meus oficiais, para revistar seu palácio e os
palácios de seus ministros: eles pegarão o que quiserem e levarão embora».
7
Então o rei de Israel convocou todos os anciãos do país e
lhes disse: «Reparem e vejam que esse homem quer nos arruinar. Está exigindo de
mim as minhas mulheres e filhos, apesar de eu não lhe ter recusado entregar
minha prata e ouro». 8 Todos os anciãos e o povo
todo responderam: «Não faça caso dele nem lhe obedeça». 9
Então o rei de Israel deu esta resposta aos mensageiros de Ben-Adad:
«Digam à sua majestade: Farei o que o senhor propôs na primeira vez, mas não
posso aceitar essa última exigência». E os mensageiros foram levar a resposta.
10
Então Ben-Adad mandou esta mensagem: «Que os deuses me
castiguem se na Samaria houver pó suficiente para que cada um dos meus soldados
possa pegar um punhado». 11 Mas o rei de Israel
respondeu: «Digam a Ben-Adad que ninguém canta vitória com a espada na bainha,
e sim quando a desembainha». 12 Ben-Adad estava
bebendo na tenda com os reis. Quando ouviu a resposta, ordenou aos oficiais: «A
postos!» E eles tomaram posição contra a cidade.
13
Enquanto isso, um profeta se apresentou a Acab, rei de
Israel, e disse: «Assim diz Javé: Você está vendo aquele exército imenso? Pois
bem! Eu vou entregá-lo hoje mesmo em suas mãos, para que você reconheça que eu
sou Javé». 14 Acab lhe perguntou: «Por meio de
quem?» O profeta respondeu: «Assim diz Javé: Por meio dos soldados jovens de
cada chefe das províncias». Acab insistiu: «Quem vai atacar primeiro?» Ele
respondeu: «Você mesmo».
15
Acab passou revista aos jovens soldados de cada chefe das
províncias: eram ao todo duzentos e trinta e dois. Em seguida, passou revista a
todo o exército israelita, que chegava a sete mil. 16 Ao
meio-dia, fizeram uma investida, enquanto Ben-Adad estava se embebedando junto
com os trinta e dois reis aliados. 17 Saíram
primeiro os soldados jovens de cada chefe das províncias. Então mandaram avisar
Ben-Adad: «Saíram alguns homens de Samaria». 18 Ben-Adad
ordenou: «Se saírem com intenção pacífica, sejam capturados vivos. E se saírem
para combater, sejam capturados vivos também». 19 Então
saíram da cidade os soldados jovens de cada chefe das províncias, seguidos pelo
exército, 20 e cada um deles abateu o seu
adversário. Os arameus fugiram, perseguidos pelos israelitas. Ben-Adad, rei de
Aram, escapou a cavalo com alguns cavaleiros. 21 Então
o rei de Israel saiu, apoderou-se dos cavalos e carros, e causou grande derrota
aos arameus.
22
O profeta se aproximou do rei de Israel e lhe disse:
«Coragem! Pense bem no que você deve fazer, porque, no ano que vem, o rei de
Aram virá atacá-lo novamente».
23
Os ministros do rei de Aram, por sua vez, propuseram: «O
Deus dessa gente é um Deus de montanha. É por isso que nos venceram. Mas nós
vamos lutar contra eles na planície e, com toda a certeza, venceremos. 24
Faça o seguinte: deponha todos esses reis, substituindo-os por
governadores. 25 Recrute um exército como aquele
que você perdeu, com o mesmo número de cavalos e carros. Depois, vamos
combatê-los na planície e, com toda a certeza, venceremos». Ben-Adad seguiu o
conselho deles e assim fez.
26
No ano seguinte, Ben-Adad passou revista aos arameus e
subiu a Afec, para lutar contra Israel. 27 Os
israelitas, mobilizados e providos de víveres, saíram ao encontro de Ben-Adad.
Acampados diante do inimigo, os israelitas eram como dois rebanhos de cabras,
enquanto os arameus enchiam a região toda.
28
O homem de Deus se aproximou do rei de Israel e lhe disse:
«Assim diz Javé: Os arameus disseram que Javé é um Deus de montanha e não de
planície. Por isso, eu vou entregar a você esse exército imenso, para que você
reconheça que eu sou Javé». 29 Durante sete dias,
os dois exércitos estiveram acampados um na frente do outro. No sétimo dia
começou a batalha, e num só dia os israelitas mataram cem mil soldados da
infantaria dos arameus. 30 Os sobreviventes fugiram
para a cidade de Afec, porém as muralhas desabaram sobre os vinte e sete mil
homens que tinham sobrado. Ben-Adad fugiu e, entrando na cidade, se escondia de
casa em casa. 31 Seus ministros lhe disseram:
«Olhe, ouvimos dizer que os reis de Israel são misericordiosos. Vamos
vestir-nos com pano de saco, amarrar cordas no pescoço e ir ao encontro do rei
de Israel. Talvez ele conserve a sua vida». 32 Vestiram-se,
então, com pano de saco, amarraram cordas no pescoço e saíram ao encontro do
rei de Israel, dizendo: «Assim diz o seu servo Ben-Adad: Deixe-me viver!» O rei
respondeu: «Ben-Adad ainda está vivo? Ele é meu irmão!» 33
Os mensageiros acolheram essas palavras como bom augúrio, e se apressaram
a tomá-las ao pé da letra, dizendo: «Ben-Adad é irmão dele!» Acab respondeu:
«Vão buscá-lo». Ben-Adad foi até Acab, e este o fez subir em seu carro. 34
Então Ben-Adad lhe propôs: «Vou devolver a você as cidades que meu pai
tomou de seu pai, e você poderá ter mercados em Damasco como meu pai tinha na
cidade de Samaria». Acab respondeu: «Vou fazer um pacto e deixá-lo em
liberdade». E Acab fez um pacto com Ben-Adad e o deixou em liberdade.
35
Então um dos filhos de profetas disse a um companheiro
seu, por ordem de Javé: «Fira-me!» Mas o companheiro não o quis ferir. 36
O profeta lhe disse: «Porque você não obedeceu à ordem de Javé, um leão o
matará logo que você se separar de mim». E enquanto ele se afastava, encontrou
um leão, que o matou. 37 O profeta encontrou-se com
outro homem, e disse: «Fira-me!» O homem deu-lhe um golpe e o deixou ferido. 38
O profeta foi esperar o rei no caminho, disfarçando-se com uma atadura
sobre os olhos. 39 Quando o rei passou, o profeta
gritou: «Seu servo estava no meio da batalha, quando um homem se aproximou e me
entregou outro homem, dizendo-me: ‘Guarde este homem. Se ele desaparecer, você
deverá pagar com a vida ou com dinheiro’. 40 Pois
bem, enquanto eu estava ocupado aqui e ali, o homem desapareceu». O rei de
Israel lhe disse: «Esta é a sua sentença! Você mesmo a pronunciou». 41
Então o profeta tirou a atadura que tinha sobre os olhos e o rei de
Israel percebeu que era um profeta. 42 Então ele
disse ao rei: «Assim diz Javé: Porque você deixou escapar o homem que eu tinha
consagrado ao extermínio, você pagará com a própria vida a vida dele, e com o
seu exército o exército dele». 43 O rei de Israel
foi para casa triste e aflito, e entrou em Samaria.
* 20,1-43: O capítulo interrompe as narrativas sobre Elias. Neste episódio, o rei Acab, num primeiro momento, consulta o povo e sabe ouvir os profetas. Desse modo, a sua política é benéfica. A seguir, porém, começa a tomar decisões por própria conta, tentando conciliar projetos contrários. O profeta denuncia o fato e anuncia as conseqüências. http://www.paulus.com.br/biblia-pastoral/_P94.HTM
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