Blogue

O amor mais difícil, e mais provado, é o que nos faz sofrer. Daí que o amor ao inimigo seja difícil; não nos apetece nada amar quem nos faz mal. Mas também é difícil amar os parentes: quantas famílias desavindas, quantos crimes no seio da família, quantos divórcios! As amizades também acabam. E também parece ser difícil amar a pessoa que passa por nós na rua e que não veremos mais.
Amar tem de ser constante porque a presença de Deus em nós – a totalidade do Amor – também é constante. Amar não é beijar ou fazer uma festa. Amar é querer o bem do outro e é por isso que o beijamos ou lhe fazemos uma festa. Já aqui temos de perceber bem a diferença entre o amor e um ímpeto, uma inclinação natural.
Quando o amante beija o amado é porque lhe apetece ou para provocar uma sensação agradável ao amado e assim mostrar o seu amor? (Provocando uma sensação agradável também em si próprio.) Acho que normalmente não pensamos nisso. Provavelmente as pessoas que beijam não pensam: “vou agora provocar uma sensação agradável ao meu amado” ou “vou demonstrar ao meu amado que o amo”. Mas, no beijo, ou em qualquer manifestação sensual, tem de estar subjacente o amor. No amor romântico, no amor que expresso de maneira romântica tenho sempre de ter em consideração o bem do outro. Porque chamar amor a um gesto que eu faço, ou não faço, para me satisfazer só a mim, é uma falsidade.
Em todos os atos de amor, seja a quem for, tem de haver o amor a mim e o amor ao outro. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, diz-nos Jesus (Mt 22, 39) citando o Levítico (Lv 19, 18). Portanto, a ação de amar o próximo é sempre dupla: amar-me e amar o próximo. Quando se diz “ele ama tanto que até se esquece de si” quer dizer-se que ele se esquece do seu egoísmo e não que se abstenha de ter satisfação naquela ação amorosa. Se com aquela expressão se quer significar que ele, ao amar o outro, deixa de se amar a si próprio, estamos a falar de algo que não é amor, que é um desequilíbrio afetivo e que vai causar ressentimento.
Quando um Pai entra num quarto em chamas para salvar os filhos também se está a amar a si próprio? Está. Está a tentar salvar o que lhe é muito querido e a corresponder ao amor que é Deus dentro dele. E quando um homem se oferece, num campo de concentração, para morrer, com um sofrimento atroz, em vez de outro? Como é que este homem se está a amar? Está a corresponder à voz de Deus dentro de si, está profundamente unido a Deus, está cheio de Deus, transborda Deus. E, para ele, essa alegria que o enche todo, uma alegria divina, dá-lhe uma grande paz, embora não torne agradável o sofrimento por que vai passar.
Se um casal põe sempre os filhos à frente, não arranjando espaço para se amar entre si, não se está a amar e também não está a amar os filhos porque lhes está a dar uma ideia errada do seu lugar (do lugar dos filhos e do lugar dos pais) na vida familiar. O amor nunca pode ser à minha custa, à custa da minha infelicidade. Isso é uma distorção que se pagará, cujos efeitos nocivos surgirão mais cedo ou mais tarde e se virarão contra mim. O mesmo se diga em relação ao casal que negligencia os filhos. Obviamente. Daí que amar não seja só um impulso. Amar é um ato racional, deliberado, fruto de uma decisão pensada.
Amar não é deixar-se ir na onda, por muito boa e desinteressada que a “onda” pareça. Amar aprende-se. E como não há livros sobre como amar (eu não conheço… mas também conheço pouco…), tem de ser por tentativa e erro. E o erro implica a tolerância. (Estamos sempre a tempo de arrepiar caminho.)
Podemos amar em qualquer circunstância. Muitas pessoas, quando sofrem, atropelam o seu próximo, como por exemplo aqueles que nas crises açambarcam. Mas no meio da angústia e da dor aparecem raios de luz, como aquele bispo vietnamita que amava a todos – com gestos concretos – no campo de concentração onde esteve 20 anos. Guardas e prisioneiros.
Na cama de um hospital podemos virar-nos exclusivamente sobre o nosso sofrimento ou interessarmo-nos pelas pessoas que nos visitam, rezarmos pelas pessoas que nos tratam, estabelecer uma relação humana com elas e ter gestos de amor para com elas. Podemos estar num hospital só a receber ou a receber e a dar. Um dia soube de um doente que, ao ter alta, deu pequenas prendas a todas as pessoas que o trataram bem. Pois disseram-lhe que nunca ninguém tinha feito aquilo. Este homem marcou aquelas pessoas para toda a vida.
E como é que amamos a pessoa que não conhecemos? Vou dar só três exemplos: podemos, ao passar com pressa, evitar dar encontrões. Podemos, se guiando, ter cuidado, em dias de chuva, de não molhar as pessoas que estão no passeio. E podemos, ao passar a pé, fazer com que a água que escorre do nosso guarda-chuva não molhe a pessoa que está a passar por nós, o que, às vezes, implica caírem umas pingas em cima de nós. São gestos muito simples, mas que nos podem custar. Amar custa.
E, por último, como amar a menina da caixa do supermercado ou o segurança que está à entrada? O leitor já reparou que aquela menina que tem de estar ali, de pé, (normalmente de pé) horas a fio, obrigada – senão é castigada – a ser simpática e educada pode estar maldisposta, ou com dores de cabeça ou já muito cansada? Como é que o leitor a cumprimenta? Como é que reclama? Como é que se despede? Um cliente maldisposto pode estragar o dia daquela funcionária. E quanto ao segurança à porta da loja ou do supermercado? Já reparou que quase ninguém o cumprimenta, ou lhe sorri? Ele está ali horas e horas a ver passar pessoas que não veem nele um ser humano, não veem nele “o próximo”, não veem nele um irmão. Ou, por exemplo, quando vai a sair de uma sala de cinema e já lá estão, paradas, as senhoras da limpeza, o leitor cumprimenta-as ou ignora-as, como se fossem mais uma cadeira?
Caro leitor, amar exige força, perseverança, abnegação e muita imaginação. Peçamo-lo ao Espírito Santo. Empenhemo-nos. Façamos desabrochar Deus – o Amor – que temos dentro de nós.
Gonçalo Miller Guerra, sj
Photo by Nathan Anderson on Unsplash
Nenhum comentário:
Postar um comentário