A Epifania aqui cantada marca um momento crucial na vida monástica de Thomas Merton, ocasião em que se voltou para o mundo que antes havia negado ao se fazer monge trapista.
Merton expressa com suma beleza e densidade de palavras estar “submerso pela compreensão de que eu amava toda aquela gente, que eles todos eram meus e eu deles, e que não podíamos estar alheios uns aos outros, embora fôssemos totais desconhecidos” isso é uma clara percepção da comunhão gerada pela experiência do “ekstasis” o que o faz acordar “de um sonho de separação”.
Sua consciência de imersão no mundo o livra do “direito” de desprezar o que é secular, ao modo da constante lembrança da Encarnação do Verbo na carne humana. “É um destino glorioso ser membro da raça humana, o próprio Deus exultou ao tornar-se membro da raça humana. Deus se encarnou. Como se as dores e a estupidez da condição humana pudessem me esmagar, agora que tenho consciência daquilo que nós todos somos. Que bom seria se todos pudessem ter consciência disso!”
Essa lembrança gera em Merton o profetismo que grita contra o “mundo da bomba nuclear, o mundo do ódio racial, o mundo da tecnologia, dos meios de comunicação de massa, das grandes empresas, da revolução e de tudo mais.” Ao mesmo tempo Merton sente alegria, que quase o faz rir abertamente, e em seguida a sensação de libertação, onde exclama: “Graças a Deus, graças a Deus que sou como os outros homens, que sou apenas um homem entre outros”.
Merton sentiu como se “visse a beleza secreta de seus corações, a profundeza de seus corações onde nem o pecado, nem o desejo, nem o autoconhecimento podem penetrar. Isto é, o cerne da realidade de cada um, da pessoa de cada um aos olhos de Deus.” Ele sente no centro de si mesmo, e dos outros, aquele “ponto virgem” o qual descreve com raríssima beleza poética e teológica.
Em suma, essa experiência faz parte da evolução espiritual de Merton que tem o seu ponto de inflexão em 1958, a partir da experiência no centro de Louisville, Estado do Kentucky, EUA. Em pleno centro comercial, atrás da Catedral Nossa Senhora da Assunção, Merton percebe como que num momento de iluminação, que os votos monásticos não o separaram do mundo, mas o aproximaram ainda mais dele; que ele próprio é parte da família humana, tão amada por Deus e tão ameaçada pela violência presente na sociedade, na cultura e na religião. Uma tal experiência aprofundou sua experiência de Deus e dos humanos, imprimindo profundidade aos seus escritos. Coincide também com o início do pontificado de João XXIII naquele mesmo ano, inaugurando uma maior abertura da Igreja ao mundo. Começa então a se encontrar com os problemas do mundo, dentre os quais o mais grave é o da ameaça da guerra, e o consequente empenho em promover a paz.
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