Artigo de Dom Walmor

Presunção e água benta
Os
ditados populares são sabedorias inscritas na vida do povo, fonte
incontestável de referências e têm a força pedagógica necessária para
importantes correções. Por isso mesmo, é oportuno lembrar, aqui, um
ditado popular recitado, em muitas oportunidades, por velha amiga com
longa experiência de vida, o que lhe confere autoridade: “presunção e
água benta, cada um pode ter o quanto quiser”. Lembrando que a escolha
equivocada é um risco. Certamente, além de afronta à civilidade, agir
com presunção pode trazer prejuízos a diferentes processos, com perdas
sociais e institucionais. É preciso, pois, buscar o remédio para esse
mal e a receita vem dos evangelhos, nos muitos ensinamentos de Jesus.
Se
a presunção não for tratada, ela se agrava e torna-se soberba, a grande
responsável pelas indiferenças, que enjaulam o ser humano na
incompetência para se relacionar. Distancia-o da sensibilidade
indispensável para o exercício da solidariedade. Deve-se buscar a
humildade, virtude que é o grande antídoto para curar presunções. Por
ser virtude, requer dinâmicas existenciais e espirituais para
desenvolvê-la. A referência a húmus, na etimologia do vocábulo
humildade, remete ao sentido de “pés no chão”, à vida em parâmetros de
simplicidade. Para se orientar a partir desses parâmetros, torna-se
oportuno cada pessoa reconhecer a sua condição frágil e mortal que é
própria de todo ser humano. Assim se encontram razões para atitudes e
hábitos simples, reconhecendo-se humilde servidor.
Desconsiderar a
humildade, nas dinâmicas espirituais e existenciais diárias, é um
risco. Pode provocar o desvirtuamento de identidades, da personalidade
e, consequentemente, desfigurar o caráter, sustentáculo para o exercício
da cidadania e da vivência autêntica da fé cristã. Há de se ter
presente que a presunção tem força de perversão. Enfraquece o
relacionamento humano, indispensável para o desenvolvimento das
iniciativas necessárias ao bem de todos. Esse mal distancia e alimenta
perigosa pretensão: se achar melhor, muitas vezes, a partir da
desvalorização do outro. Na esfera religiosa, há de se calcular o
prejuízo terrível da presunção, causa de práticas tortas, que se dizem
ligadas à fé cristã. Presunção é o habitat do orgulho e da ganância.
Manifesta-se em disputas por privilégios, na busca egoísta completamente
oposta à verdade do Evangelho, que tem por princípio fundamental a
igualdade, o sentido de pertencimento e a solidariedade.
A
presunção propicia a manipulação das razões e sentimentos religiosos,
desfigurando a autenticidade evangélica. É um mal que induz as pessoas a
buscarem somente arrebanhar mais, conquistar mais seguidores, arrecadar
mais. Os resultados são nefastos pelo desvirtuamento da genuinidade do
cristianismo, com a consequente perda de seu valor profético e
profundamente transformador de mentes e de dinâmicas culturais. No
horizonte da religiosidade, a presunção também impõe atrasos, gera
entendimentos rígidos, retrógrados, que buscam alimentar certo domínio
das aparências, servindo apenas para camuflar interesses contrários à fé
cristã e ao nobre sentido da religiosidade. Esses entendimentos
equivocados dão origem às idolatrias que alimentam perspectivas
patológicas. E não se pode considerar normal, especialmente no contexto
religioso, a idolatria a pessoas.
No mundo político não é
diferente. A presunção também alimenta a inconsciência a respeito dos
próprios limites, o que leva à lamentável perda do sentido de realidade.
Gera, assim, incapacidade para solucionar, com a necessária urgência,
os graves problemas da atualidade. A representatividade no mundo da
política, contaminada pelo veneno da presunção, limita-se a agir em
favor de oligarquias e na busca por privilégios. A presunção cega a
indispensável e saudável capacidade para a autocrítica. Em vez desse
necessário exercício, grupos e segmentos se pautam por pretensões
inconsistentes, completamente desconectadas da realidade. Contexto que
favorece a projeção de ídolos políticos revestidos de feições
religiosas. Indivíduos que fazem da política o que ela não deveria ser,
com atrasos na promoção da participação cidadã, inviabilizando,
inclusive, a renovação dos nomes no exercício da representatividade e a
rapidez na solução dos muitos problemas sociais.
Vale avançar no
horizonte deste ditado popular – “presunção e água benta, cada um pode
ter o quanto quiser”- para se reconhecer patologias que levam a atrasos
civilizatórios, com a incapacidade para se enxergar novos rumos e nomes,
novas práticas e respostas para as demandas da sociedade. Quem precisa
sair de cena não sai, por não reconhecer que é necessário fechar um
ciclo para a abertura de um novo. Alimentar a presunção é permanecer no
parâmetro da mediocridade, escondida por muitas roupagens que apenas
enganam para não ter que mudar o que precisa sofrer rápidas e urgentes
intervenções. Tudo se justifica pela deliberada falta de consciência
clarividente e de autocrítica, porque “presunção e água benta, cada um
pode ter o quanto quiser”.
Dom Walmor Oliveira de AzevedoArcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Ilustração: Jornal Estado de Minas
http://arquidiocesebh.org.br/para-sua-fe/espiritualidade/artigo-de-dom-walmor/presuncao-e-agua-benta/
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