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terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

 

Pegadas impressas na areia do deserto, para o profeta Oséias “o lugar do primeiro amor”,
onde Deus educa o seu povo para a liberdade


PAPAPAPA FRANCISCO
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IGREJA

Papa: Quaresma, a humanidade tateia ainda na escuridão das desigualdades

Em sua mensagem para a Quaresma 2024, Francisco reconhece que a humanidade de hoje atingiu
“níveis de desenvolvimento científico, técnico, cultural e jurídico capazes de garantir dignidade
a todos”, mas o risco é que, sem rever os estilos de vida, se caia na “escravidão” de práticas
que arruínam o planeta e alimentam as desigualdades.



Mariangela Jaguraba - Vatican News

Foi divulgada, nesta quinta-feira (1°/02), a mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2024 sobre
 o tema "Através do deserto, Deus guia-nos para a liberdade".

Francisco inicia o texto com um versículo do Livro do Êxodo: «Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fiz
sair da terra do Egito, da casa da servidão». "Assim inicia o Decálogo dado a Moisés no Monte Sinai",
escreve o Papa, acrescentando que "quando o nosso Deus se revela, comunica liberdade".

Deserto, lugar do primeiro amor

"O povo sabe bem de que êxodo Deus está falando: traz ainda gravada na sua carne a experiência da
escravidão. Como Israel no deserto tinha ainda dentro de si o Egito, também hoje o povo de Deus traz
dentro de si vínculos opressivos que deve optar por abandonar. Damo-nos conta disto, quando nos falta
a esperança e vagueamos na vida como em terra desolada, sem uma terra prometida para a qual
tendermos juntos", sublinha o Papa.

A seguir, Francisco recorda que "a Quaresma é o tempo de graça em que o deserto volta a ser – como
anuncia o profeta Oseias – o lugar do primeiro amor. Deus educa o seu povo, para que saia das suas
escravidões e experimente a passagem da morte para a vida. Como um esposo, atrai-nos novamente
a si e sussurra ao nosso coração palavras de amor".

Ver a realidade

"O êxodo da escravidão para a liberdade não é um caminho abstrato. A fim de ser concreta também a
nossa Quaresma, o primeiro passo é querer ver a realidade. Também hoje o grito de tantos irmãos e
irmãs oprimidos chega ao céu", escreve o Pontífice. A seguir, Francisco pergunta: o grito desses nossos
irmãos e irmãs "chega também a nós? Mexe conosco? Comove-nos? Há muitos fatores que nos afastam
uns dos outros, negando a fraternidade que originariamente nos une".

A este propósito, o Papa recorda sua viagem a Lampedusa, em 8 de julho de 2013, ressaltando que à
globalização da indiferença ele contrapôs duas perguntas, que se tornam cada vez mais atuais: «Onde
estás?» e «Onde está o teu irmão?». Segundo Francisco, "o caminho quaresmal será concreto, se,
voltando a ouvir tais perguntas, confessarmos que hoje ainda estamos sob o domínio do Faraó. É um
domínio que nos deixa exaustos e insensíveis. É um modelo de crescimento que nos divide e nos rouba
o futuro. A terra, o ar e a água estão poluídos por ele, mas as próprias almas acabam contaminadas por
tal domínio. De fato, embora a nossa libertação tenha começado com o Batismo, permanece em nós
uma inexplicável nostalgia da escravidão. É como uma atração para a segurança das coisas já vistas,
em detrimento da liberdade".

A Quaresma é tempo de conversão, tempo de liberdade

Segundo o Pontífice, "o êxodo pode ser interrompido: não se explicaria de outro modo porque é que
tendo uma humanidade chegado ao limiar da fraternidade universal e a níveis de progresso científico,
técnico, cultural e jurídico capazes de garantir a todos a dignidade, tateie ainda na escuridão das
desigualdades e dos conflitos".

"Deus não se cansou de nós. A Quaresma é tempo de conversão, tempo de liberdade. O próprio Jesus
foi impelido pelo Espírito para o deserto a fim de ser posto à prova na sua liberdade. O deserto é o
espaço onde a nossa liberdade pode amadurecer numa decisão pessoal de não voltar a cair na
escravidão. Na Quaresma, encontramos novos critérios de juízo e uma comunidade com a qual avançar
por um caminho nunca percorrido", escreve ainda Francisco, ressaltando que "isto comporta uma luta:
assim nos dizem claramente o livro do Êxodo e as tentações de Jesus no deserto".

Mais temíveis que o Faraó são os ídolos

De acordo com Francisco, "mais temíveis que o Faraó são os ídolos: poderíamos considerá-los como a
voz do inimigo dentro de nós. Poder tudo, ser louvado por todos, levar a melhor sobre todos: todo o ser
 humano sente dentro de si a sedução desta mentira. É uma velha estrada. Assim podemos apegar-nos ao
dinheiro, a certos projetos, ideias, objetivos, à nossa posição, a uma tradição, até mesmo a algumas
pessoas. Em vez de nos pôr em movimento, nos paralisam. Em vez de nos fazer encontrar, nos dividem".

Porém, "existe uma nova humanidade, o povo dos pequeninos e humildes que não cedeu ao fascínio da
mentira. Enquanto os ídolos tornam mudos, cegos, surdos, imóveis aqueles que os servem, os pobres em
espírito estão imediatamente disponíveis e prontos: uma força silenciosa de bem que cuida e sustenta o
mundo".

Agir é também parar

"É tempo de agir e, na Quaresma, agir é também parar: parar em oração, para acolher a Palavra de Deus,
 e parar como o Samaritano na presença do irmão ferido", sublinha o Papa. Segundo ele, "a oração,
esmola e jejum não são três exercícios independentes, mas um único movimento de abertura, de
esvaziamento: lancemos fora os ídolos que nos tornam pesados, fora os apegos que nos aprisionam.
Então o coração atrofiado e isolado despertará".

Quaresma, tempo de decisões comunitárias

Segundo o Papa, "a forma sinodal da Igreja, que estamos redescobrindo e cultivando nestes anos, sugere
que a Quaresma seja também tempo de decisões comunitárias, de pequenas e grandes opções
contracorrente, capazes de modificar a vida quotidiana das pessoas e a vida de toda uma coletividade:
os hábitos nas compras, o cuidado com a criação, a inclusão de quem não é visto ou é desprezado".

"Na medida em que esta Quaresma for de conversão, a humanidade extraviada sentirá um abalo de
 criatividade: o lampejar de uma nova esperança", escreve ainda o Papa, recordando as suas palavras
 dirigidas aos jovens da JMJ de Lisboa, no verão passado: «Procurai e arriscai; sim, procurai e arriscai.
Neste momento histórico, os desafios são enormes, os gemidos dolorosos: estamos vivendo uma terceira
guerra mundial feita aos pedaços. Mas abracemos o risco de pensar que não estamos numa agonia, mas
num parto; não no fim, mas no início de um grande espetáculo. E é preciso coragem para pensar assim».

"É a coragem da conversão, da saída da escravidão. A fé e a caridade guiam pela mão esta esperança
 menina. Elas a ensinam a caminhar e, ao mesmo tempo, ela as puxa para a frente", conclui a mensagem
do Papa.



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01 fevereiro 2024, 12:07Enviar
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