Levante a voz
Os descompassos na sociedade brasileira exigem que se levante a
voz – não se pode correr o risco de omissão. A indiferença é uma
conivência imoral. Torna-se, pois, urgente levantar a voz. O desafio é
entender bem a qualidade desse ato. Ao contrário dos embates que se
presencia nos cenários contemporâneos, é necessário que se levante a voz
seguindo o exemplo da rica tradição dos profetas de Israel. Levantar a
voz na tradição profética e no exercício do ministério de Jesus é a
exigência de se dizer em vista da verdade, do bem e da justiça.
O falatório atual precisa ser substituído, urgentemente, pelo
compromisso de que se levante a voz para educar e recompor o perigoso
esgarçamento do tecido sociopolítico que ameaça o futuro e o presente.
Há de se notar as trapalhadas nas falas e nas propostas com o
estabelecimento de muita confusão. O momento exige um recomeço a partir
de contribuições significativas de modo que, ao se levantar a voz, se
esteja engajado em processos que contribuam para nova compreensão da
realidade. Se o conjunto da humanidade, neste exato momento, nos seus
diferentes segmentos, não conseguir levantar a voz, saibam: a sociedade
será, velozmente, e sempre mais de modo destruidor, lançada no caos e na
autodestruição.
O novo do indispensável processo de se levantar a voz, agora, tem seu
ponto de partida na escuta qualificada dos outros, particularmente em
se tratando dos clamores dos pobres e dos honestos. Assiste-se à
derrocada de instituições indispensáveis a assegurar os funcionamentos
democráticos. Há sinais de posturas ditatoriais e de configuração de
esquemas de negociatas e de vantagens para grupos e segmentos
oligárquicos sob a hegemonia sedutora e doentia da idolatria do
dinheiro. Há convicções de que o lugar ocupado é justo, sem autocrítica.
Uma visão emoldurada por entendimentos questionáveis, com uma lógica
empobrecida do sentido de humanismo e de “pertença” à nação.
Levantar a voz precisa ser um forte movimento de reparação e de
impulso para uma compreensão ajustada da sociedade, do uso de seus bens,
da sensibilidade social, que fecunda o sentido de respeito à Casa
Comum, pela superação desses disparates que estão comprometendo o
respeito indispensável a uma sociedade democrática. Levantar a voz é um
remédio para salvar a sociedade brasileira – antídoto para a “avalanche”
de falatórios estéreis propalados como verdade. Falatórios que são
difundidos por quem não goza de autoridade moral. Não basta falar. Há
quem fale, e muito, até mesmo para se justificar e se defender pela arma
criminosa da detração do outro.
Na raiz da incompetência revelada nos falatórios que estão
diametralmente opostos ao ato de levantar a voz, com sua força moral
própria, constata-se grave relativismo prático responsável por um estilo
de vida desordenado, gerador de confusão mental e escolhas pautadas por
parâmetros medíocres e mesquinhos. O Papa Francisco já admitiu que esse
relativismo prático é mais perigoso que aquele doutrinal. Há uma onda
perigosa em que o indivíduo se coloca no centro, dando prioridade
absoluta aos seus interesses absurdos. As instituições estão sendo
atingidas frontal e mortalmente. Há verdadeira adoração pelo poder e
pelo dinheiro, o que faz indivíduos se tornarem representantes do
maligno. As consequências terríveis são evidentes na degradação
ambiental e social em curso. Essa famigerada cultura do relativismo é a
patologia que manipula a pessoa e a convence de se aproveitar dos
outros, como se fossem meros objetos. Com isso, as instituições estão em
processo de derrocada, pois carecem de pessoas com verdadeira e
comprovada autoridade moral. Vê-se, com perplexidade, defesas de
moralidades e, ao mesmo tempo, o comprometimento de intocáveis
princípios. Uma confusão que acirra posições parciais típicas de
indivíduos que não dão conta do mínimo moralmente exigido e
indispensavelmente requerido.
A lógica desse relativismo da moral é a mesma que leva à defesa
rígida de um aspecto e a negociação de outro por fraqueza e interesses
espúrios. Dois pesos, duas medidas. “Levante a voz” é o convite
interpelante, dinâmica da reconstituição do tecido moral da sociedade
brasileira. Para isso, a coerência profética é condição indispensável,
de modo que o falar seja acompanhado sempre de gestos concretos
coerentes e fundamentados na verdade. A sociedade precisa que suas
instituições levantem a voz para salvá-la do fracasso, imposto pela
falta de coerência e pelas manipulações. Isso exige coragem e destemor. O
mundo da educação, particularmente, precisa levantar a voz e
desinstalar-se daquelas costumeiras críticas insípidas e conceitualistas
sem força de mudança. Todos precisam levantar a voz antes que seja
tarde.
Fale alto o bem comum, impulsione o altruísmo, valha a honra, o
respeito e a generosidade. Consiga-se, assim, fazer frente ao rolo
compressor dos falatórios e falsificações com a voz que se levanta e
produz novos entendimentos, escolhas assertivas e justas. Efetive-se a
superação de criminosos denuncismos, para desenhar novas dinâmicas
civilizatórias, livres de juízos sem a mínima noção de realidade. É
tempo de levantar a voz para fazer valer a verdade e avançar na direção
do bem. Se quiser contribuir agora, do seu lugar, alicerçado na verdade e
no apreço pelo outro e pelo bem, levante a voz. Trata-se de efetiva
participação democrática.
Uma nova compreensão com escolhas adequadas é a exigência para
correção de rumos e descobertas de novas respostas. Essa conquista não é
fácil de ser alcançada. Virá sempre de quem atender ao convite: levante
a voz, para promover entendimentos e iluminar mentes, levando a
escolhas que equilibrem a vida e as relações. Levante a voz para fazer
valer a verdade em lugar de calúnias e difamações, para construir
projetos e novos sistemas. Se todos levantarem a voz no horizonte da
fraternidade e da verdade do Evangelho de Jesus, serão fortalecidas
dinâmicas de conversão e mudanças no tecido civilizatório – uma urgência
para a sociedade brasileira, que depende muito de que se levante a voz.
Dom Walmor Oliveira de AzevedoArcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Ilustração: Jornal Estado de Minas
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