16 out
“Até quando, Senhor?”

1.
A pergunta é um grito da alma do profeta Habacuc, escandalizado com a
infelicidade dos justos em contraste com o sucesso dos ímpios. Cansado
de clamar contra tanta violência, opressão, discórdias, iniquidade e
injustiças e cansado de ver o mal vencendo o bem, um porquê subterrâneo o
invade por dentro. Porque triunfam os ímpios? Porque se ri a injustiça
da justiça, a maldade da bondade e a corrupção da honestidade? “Até
quando, Senhor, clamarei por Vós?”
Habacuc está cansado de esperar, ao ver que a virtude não compensa e a honestidade muito menos. Está impaciente porque Deus aparentemente não intervém, parecendo esquecido dos seus. É sensação de abandono num mundo onde campeia a lei do mais forte e a iniquidade se vangloria, altaneira, qual espinheiro de que fala a sagrada escritura.
Mudaram-se os tempos, mas não se mudaram as vontades. O mal parece continuar a compensar e a corrupção também. E “quando” a justiça chega, a passo de caracol, o mal está feito. Por isso, o “Até quando, Senhor?” de Habacuc continua a ser grito de alma dos tempos que são os nossos.
2. Há conflito entre o tempo do homem e o tempo de Deus, entre a impaciência de Habacuc e a paciência de Deus, paciência que enerva e incomoda os cem anos do tempo do homem e as duas ou três gerações que cabem na história desses mesmos cem anos. Vivemos, de facto, incomodados com Deus e com o seu “tempo”, a trabalhar no nosso tempo e na nossa história, “dando” tempo ao tempo. Muita coisa Deus entregou e continua a entregar aos homens (vida, talento, qualidades pessoais, bens materiais e espirituais…) para a sua realização humana integral, mas não lhes entregou o tempo (“Não sabeis o dia nem a hora… Por isso, vigiai e orai”). Só Ele é o Senhor do Tempo.
Até quando, Habacuc? – “Na devida altura” respondeu-lhe o Senhor. “Quando” chegar a hora da ceifa, dirá Jesus aos seus discípulos na Parábola do Joio e do Trigo.
3. Nada a fazer, portanto? – Não é bem assim. Na Sarça Ardente Deus viu a exploração e a escravização em que viviam os filhos de Israel no Egito. E ouviu o seu clamor. E determinou-Se a fazer qualquer coisa para alterar aquela situação. Mas quem o vai fazer és tu, diz a Moisés. E assim começa aquela longa caminhada através do deserto até chegar à terra que o Senhor prometeu dar-lhe e à sua descendência: A Terra Prometida onde corre leite e mel. No nosso caso, seria o nosso tempo a desaguar no tempo de Deus que é eterno.
Até lá…“aumentai a nossa fé”, pedem os apóstolos “naquele (seu) tempo”, ao Senhor. Até lá, é preciso perseverar nessa fé para responder ao “Até quando” do profeta Habacuc. É, aliás, o grande desafio deixado por Cristo aos seus seguidores: “Quando o Filho do Homem voltar, encontrará fé sobre a terra?”
Boa pergunta que deixo como teste às impaciências e desnortes dos nossos dias tão confusos. Mas teste também à capacidade cristã de resistência e empenhamento na transformação do tempo do homem (cronós) em tempo de “graça” (kairós) que o Senhor quer realizar, pacientemente, dando o seu Tempo ao nosso tempo. Qual Pai à espera do Filho Pródigo, pródigo que, nas circunstâncias, leva por nome a nossa humanidade.
https://redemundialdeoracaodopapa.pt/blog/243A. da Costa Silva, s.j.
Habacuc está cansado de esperar, ao ver que a virtude não compensa e a honestidade muito menos. Está impaciente porque Deus aparentemente não intervém, parecendo esquecido dos seus. É sensação de abandono num mundo onde campeia a lei do mais forte e a iniquidade se vangloria, altaneira, qual espinheiro de que fala a sagrada escritura.
Mudaram-se os tempos, mas não se mudaram as vontades. O mal parece continuar a compensar e a corrupção também. E “quando” a justiça chega, a passo de caracol, o mal está feito. Por isso, o “Até quando, Senhor?” de Habacuc continua a ser grito de alma dos tempos que são os nossos.
2. Há conflito entre o tempo do homem e o tempo de Deus, entre a impaciência de Habacuc e a paciência de Deus, paciência que enerva e incomoda os cem anos do tempo do homem e as duas ou três gerações que cabem na história desses mesmos cem anos. Vivemos, de facto, incomodados com Deus e com o seu “tempo”, a trabalhar no nosso tempo e na nossa história, “dando” tempo ao tempo. Muita coisa Deus entregou e continua a entregar aos homens (vida, talento, qualidades pessoais, bens materiais e espirituais…) para a sua realização humana integral, mas não lhes entregou o tempo (“Não sabeis o dia nem a hora… Por isso, vigiai e orai”). Só Ele é o Senhor do Tempo.
Até quando, Habacuc? – “Na devida altura” respondeu-lhe o Senhor. “Quando” chegar a hora da ceifa, dirá Jesus aos seus discípulos na Parábola do Joio e do Trigo.
3. Nada a fazer, portanto? – Não é bem assim. Na Sarça Ardente Deus viu a exploração e a escravização em que viviam os filhos de Israel no Egito. E ouviu o seu clamor. E determinou-Se a fazer qualquer coisa para alterar aquela situação. Mas quem o vai fazer és tu, diz a Moisés. E assim começa aquela longa caminhada através do deserto até chegar à terra que o Senhor prometeu dar-lhe e à sua descendência: A Terra Prometida onde corre leite e mel. No nosso caso, seria o nosso tempo a desaguar no tempo de Deus que é eterno.
Até lá…“aumentai a nossa fé”, pedem os apóstolos “naquele (seu) tempo”, ao Senhor. Até lá, é preciso perseverar nessa fé para responder ao “Até quando” do profeta Habacuc. É, aliás, o grande desafio deixado por Cristo aos seus seguidores: “Quando o Filho do Homem voltar, encontrará fé sobre a terra?”
Boa pergunta que deixo como teste às impaciências e desnortes dos nossos dias tão confusos. Mas teste também à capacidade cristã de resistência e empenhamento na transformação do tempo do homem (cronós) em tempo de “graça” (kairós) que o Senhor quer realizar, pacientemente, dando o seu Tempo ao nosso tempo. Qual Pai à espera do Filho Pródigo, pródigo que, nas circunstâncias, leva por nome a nossa humanidade.
https://redemundialdeoracaodopapa.pt/blog/243A. da Costa Silva, s.j.
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