Artigo de dom walmor

O
mundo acompanha, pelos meios de comunicação, a dor do luto sofrida,
anonimamente, por uma grande multidão, revelando, de maneira
desconcertante, o sofrimento humano, provocado pela pandemia da
covid-19. Muitas famílias sequer tiveram a oportunidade para se despedir
de seus entes queridos. Uma dor sem bálsamo, um peso necessário ante as
exigências para a prevenção de novas contaminações. Há, pois, um clamor
silencioso, mas ensurdecedor, que vem do luto dessas famílias. Esse
clamor deve sensibilizar a sociedade, para que seja adotada a lógica da
compaixão solidária, capaz de aliviar a dor dos enlutados e de promover a
aprendizagem de um novo jeito de viver.
É preocupante a
indiferença em relação ao luto vivido pelo outro. Essa indiferença,
entre tantas outras, aumenta ainda mais o risco de um colapso
humanitário. A insensibilidade para a dor do outro, que é irmão, impede a
construção de um tempo novo para a humanidade, pois leva à banalização
da vida – um dom precioso. Sua preciosidade deve ser tratada com
ternura, nobre reverência e sempre a partir de gestos solidários entre
as pessoas. É nessa perspectiva da solidariedade que se deve, inclusive,
lidar com as muitas perdas que fazem parte da vida. No caminho oposto –
o da indiferença – é ainda mais difícil passar pelo luto, não somente
aquele provocado pela morte, mas também pelo fim de ciclos. Cegamente,
muitas vezes, as pessoas não aceitam nem a perda daquilo que, na
verdade, constitui oferta para o bem de todos. Em vez da consolação,
essas pessoas cultivam a revolta.
O luto é inevitável nas
circunstâncias da vida humana, mas pesa muito mais aquele que se origina
nas irresponsabilidades, a exemplo do que é imposto pela atual
pandemia. O luto torna-se especialmente pesado quando não é vivido
adequadamente, pois não se alcança a sua fecundidade dolorosa, a força
de redenção que surge nos limites próprios da condição humana. Não se
pode tratar o luto com indiferença. Trata-se de experiência a ser vivida
considerando a singularidade de sua dor, a consolação que se recebe das
pessoas próximas, a oportunidade para aprendizados e qualificação da
própria existência, alcançando sentidos profundos sobre o dom da vida.
Assim
é o luto cristão, caminho experiencial terapêutico que se distingue por
estar fundamentado na esperança. Essa experiência no contexto da fé
cristã é convite a vislumbrar, para além da separação terrena, o
reencontro com Deus. Os cristãos consideram seus falecidos não como
pobres mortos – eles são os que nos precedem e nos esperam diante de
Deus. A morte provoca uma separação muitas vezes desconcertante. Há os
que ficam extremamente desconsolados e até deixam de enxergar sentido na
vida. O luto cristão se assenta na certeza da vida pós-morte. Assim,
reorienta o viver de enlutados, ajuda a permear o coração com
recordações consoladoras dos que morreram. E, mesmo na impossibilidade
do contato, na invisibilidade, continua forte a presença de quem parte,
ajudando a superar tristezas e angústias dos que ficam.
A fé
cristã leva à certeza da vida eterna, conquistada com Jesus – Filho de
Deus. Sua morte e ressurreição abriram as portas da vida que nunca
passa. A morte é um trânsito pascal, significação luminosa que devolve a
certeza de uma vitória definitiva. Essa certeza, se cultivada, ameniza a
sensação de fracasso que a perda e a partida sempre trazem. A dor da
morte impõe sempre o luto, alguns ainda mais dolorosos, sobretudo por
circunstâncias incompreensíveis à racionalidade humana. O cristão também
sente o trauma da morte biológica, com as suas angústias e sofrimentos,
mas deve deixar-se orientar sempre por uma luz amorosa: a vitória da
vida sobre a morte, bálsamo para a dor humana. No caminho indicado por
essa luminosidade, os que professam a fé em Jesus devem se comprometer
com a vida, zelar por ela em todas as suas etapas. Isto inclui saber
sobre a tarefa cristã de se dedicar aos enlutados, sensibilizar-se ante a
dor do próximo, que é irmão, tratando-a com o bálsamo da consolação e
da solidariedade.
Neste contexto contemporâneo de tantas feridas,
de corações tomados pela dor, é urgente que cada pessoa busque ser
presença solidária, compartilhando palavras que devolvam a esperança.
Trata-se de cumprir missão paraclética, isto é, consoladora,
responsabilidade de todos – uns cuidando dos outros, unidos, para levar
luz aos momentos de luto e aliviar a dor humana.
Dom Walmor Oliveira de AzevedoArcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Ilustração: Jornal Estado de Minas
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