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domingo, 19 de julho de 2020

14 jul
Atravessar

Num carta escrita a Proba, o bispo Agostinho de Hipona, no início do século V, deixa, a pedido da destinatária, conselhos sobre a vida de oração. Recordemos alguns:
«Orar longamente não é o mesmo que orar com muitas palavras, como pensam alguns. Uma coisa é a abundância de palavras e outra um amor grande e perseverante. (...) Longe da oração as muitas palavras, mas não falte a súplica insistente, enquanto perdura o fervor e a atenção. Falar muito na oração é como tratar um assunto necessário e urgente com palavras supérfluas. Ao contrário, rezar muito significa bater à porta d’Aquele a quem invocamos, com insistente piedade e ardor de coração. (...)
Na oração, as palavras servem para nos estimular e para compreendermos melhor o que pedimos; não pensemos que são necessárias para informar o Senhor ou forçar a sua vontade».
No pensamento de Agostinho, a vida de oração surge unida a duas atitudes fundamentais que crescem, em nós, diariamente: a atenção e o desejo. Atenção e desejo da presença do Divino na nossa vida, uma presença ainda não-evidente, um Reino em advento que pede e suscita o acolhimento, a generosidade, a graça, a justiça. «Venha a nós o teu Reino, seja feita a tua vontade, livra-nos do mal»: nas preces da oração que o Senhor ensinou está, numa condensação plena de possibilidades, o segredo para uma oração contínua e agradecida, suplicante e desejosa.
O futuro próximo pedirá, talvez, confiança e atenção. Desejo de um tempo novo. Continuar a levar filhos e netos à praia, à natureza, aos jogos e, mais tarde, à escola. A discernir quais os encontros e relações que são vitais e indispensáveis, e quais os encontros que não o são. A recuperar os rituais e segredos dos antigos, na vida de casa como na vida de oração, esquecidos e afogados por mil bens e serviços. As preces de uma oração simples e diária, acompanhadas do silêncio e da leitura breve, estão aí como um tempero, um alimento para a memória e os pensamentos – mesmo que a nossa mente e o nosso homem velho nos digam que tudo não passa de uma vã ilusão. Mesmo assim, atravessemos.
Texto: Rui Vasconcelos

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