14 jul
Atravessar

Num
carta escrita a Proba, o bispo Agostinho de Hipona, no início do século
V, deixa, a pedido da destinatária, conselhos sobre a vida de oração.
Recordemos alguns:
«Orar longamente não é o mesmo que orar com
muitas palavras, como pensam alguns. Uma coisa é a abundância de
palavras e outra um amor grande e perseverante. (...) Longe da oração as
muitas palavras, mas não falte a súplica insistente, enquanto perdura o
fervor e a atenção. Falar muito na oração é como tratar um assunto
necessário e urgente com palavras supérfluas. Ao contrário, rezar muito
significa bater à porta d’Aquele a quem invocamos, com insistente
piedade e ardor de coração. (...)
Na oração, as palavras servem
para nos estimular e para compreendermos melhor o que pedimos; não
pensemos que são necessárias para informar o Senhor ou forçar a sua
vontade».
No pensamento de Agostinho, a vida de oração surge unida
a duas atitudes fundamentais que crescem, em nós, diariamente: a
atenção e o desejo. Atenção e desejo da presença do Divino na nossa
vida, uma presença ainda não-evidente, um Reino em advento que pede e
suscita o acolhimento, a generosidade, a graça, a justiça. «Venha a nós o
teu Reino, seja feita a tua vontade, livra-nos do mal»: nas preces da
oração que o Senhor ensinou está, numa condensação plena de
possibilidades, o segredo para uma oração contínua e agradecida,
suplicante e desejosa.
O futuro próximo pedirá, talvez, confiança e
atenção. Desejo de um tempo novo. Continuar a levar filhos e netos à
praia, à natureza, aos jogos e, mais tarde, à escola. A discernir quais
os encontros e relações que são vitais e indispensáveis, e quais os
encontros que não o são. A recuperar os rituais e segredos dos antigos,
na vida de casa como na vida de oração, esquecidos e afogados por mil
bens e serviços. As preces de uma oração simples e diária, acompanhadas
do silêncio e da leitura breve, estão aí como um tempero, um alimento
para a memória e os pensamentos – mesmo que a nossa mente e o nosso
homem velho nos digam que tudo não passa de uma vã ilusão. Mesmo assim,
atravessemos.
Texto: Rui Vasconcelos
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