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20 jul
Oxalá aprendêssemos de Maria Madalena a arte de correr

No dia 3 de junho de 2016, por pedido expresso do Papa Francisco, a Congregação
para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos decretou que a
celebração de Santa Maria Madalena seria elevada no Calendário romano
geral de memória obrigatória a festa.
revelai-vos, ó Deus vingador!
–2 Levantai-vos, Juiz das nações, *
e pagai seu salário aos soberbos!
–3 Até quando os injustos, Senhor, *
até quando haverão de vencer?
–4 Arrogantes derramam insultos *
e se gabam do mal que fizeram.
–5 Eis que oprimem, Senhor, vosso povo *
e humilham a vossa herança;
–6 estrangeiro e viúva trucidam, *
e assassinam o pobre e o órfão!
–7 Eles dizem: “O Senhor não nos vê *
e o Deus de Jacó não percebe!”
–8 Entendei, ó estultos do povo; *
insensatos, quando é que vereis?
–9 O que fez o ouvido, não ouve? *
Quem os olhos formou, não verá?
–10 Quem educa as nações, não castiga? *
Quem os homens ensina, não sabe?
–11 Ele sabe o que pensam os homens: *
pois um nada é o seu pensamento!
Ant. Deus sabe o que pensam os homens:
pois um nada é o seu pensamento.
Ant. 3 Para mim o Senhor, com certeza,
é refúgio, é abrigo, é rochedo.
e educais nos caminhos da Lei,
–13 para dar-lhe um alívio na angústia, *
quando ao ímpio se abre uma cova.
–14 O Senhor não rejeita o seu povo *
e não pode esquecer sua herança:
–15 voltarão a juízo as sentenças; *
quem é reto andará na justiça.
–16 Quem por mim contra os maus se levanta *
e a meu lado estará contra eles?
–17 Se o Senhor não me desse uma ajuda, *
no silêncio da morte estaria!
–18 Quando eu penso: “Estou quase caindo!” *
Vosso amor me sustenta, Senhor!
–19 Quando o meu coração se angustia, *
consolais e alegrais minha alma.
=20 Pode acaso juntar-se convosco †
o impostor tribunal da injustiça, *
que age mal, tendo a lei por pretexto?
–21 Eles podem agir contra o justo, *
condenando o inocente a morrer:
–22 Para mim o Senhor, com certeza, *
é refúgio, é abrigo, é rochedo!
=23 O Senhor, nosso Deus, os arrasa, †
faz voltar contra eles o mal, *
24 sua própria maldade os condena.
Ant. Para mim o Senhor, com certeza,
é refúgio, é abrigo, é rochedo.
Apesar dos cochichos sobre
quem era esta mulher e o quanto se gosta de indagar sobre a sua
possível profissão, o documento ousa chamá-la algo muito mais
interessante: apostola apostolorum. O que é que isto quer
dizer? Quais são as implicações desta frase enigmática que apesar de
estar em latim nos pode soar a chinês? Que podemos aprender de Santa
Maria Madalena sobre o que significa ser apóstolo em geral e membro
desta rede mundial de apóstolos da oração em particular?
No princípio era o Verbo [sem corretor automático]
Há uma coisa que me deixa triste. Se escrevermos a palavra apóstola no Microsoft Word,
o corretor automático não tarda em sublinhar a palavra como errada. Não
inventei este argumento para comprar simpatias. São Gregório Magno,
Papa do final do século VI, descreveu Maria Madalena como a primeira
testemunha da divina misericórdia (Homiliae in evangelia, 11,
25, 10). Ora, quando uma testemunha ocular do ministério de Cristo e da
sua Ressurreição é instruída diretamente por Cristo a anunciar
legitimamente a boa nova da ressurreição (cf. Atos 1, 15-26; 1 Coríntios 9, 1-2; 15, 7-8; 2 Coríntios 12, 12; Gálatas
1) então podemos chamar-lhe de apóstolo em pleno direito. Neste
sentido, São Tomás de Aquino afirmou com toda a legitimidade que Maria
Madalena era a apóstola dos apóstolos (In Ioannem evangelistam expositio, III, 6). Ainda bem que naquele tempo ainda não havia corretor automático…
Recordemos aqui a cena evangélica de que estamos a falar (Jo
20, 1-18). O Senhor Jesus, após a sua morte e sepultura, não se
encontrava no túmulo. Ao dar-se conta da ausência do seu corpo no
sepulcro estranhamente aberto, Maria Madalena correu a dizer a Pedro e
ao discípulo amado que o corpo do Senhor desaparecera. Ambos correm até
ao sepulcro. Pedro e o discípulo amado regressam e fica apenas Maria, ao
pé do sepulcro, a chorar o seu Senhor. A cena continua. Depois de
conversar com uns anjos, Maria é encontrada pelo ressuscitado mas não O
reconhece. Volta-se para Ele e, pensando que era o jardineiro,
pergunta-lhe onde colocou o corpo daquele que ali estava sepultado.
Depois de uns instantes de conversa, o aparente jardineiro chama Maria
pelo seu nome. Reconhecendo o timbre ressuscitado de Cristo, Maria
volta-se de novo para Ele e deixa-se enviar novamente aos discípulos.
Corre e diz-lhe: Vi o Senhor!
Habitualmente, os estudiosos da
Sagrada Escritura chamam à atenção para a repetição do termo
‘voltar-se’. Maria volta-se duas vezes para Jesus. Esta repetição parece
evocar a de uma conversão progressiva do olhar até se tornar capaz de
reconhecer quem era Aquele que lhe dizia: “Mulher, porque choras? (…)
Maria! (…) Não me toques, porque ainda não subi para o Pai. Mas vai ter
com os meus irmãos e diz-lhes: subo para o meu Pai e vosso Pai, meu Deus
e vosso Deus”. Em paralelo com esta afirmação exegética, sobre a função
da repetição da palavra ‘voltar-se’, gostava de chamar à atenção para
os dois modos de correr de Maria.
Sobre dois modos de correr
Neste
capitulo 20 de São João, Maria é apresentada duas vezes em movimento
desde o sepulcro; uma no v. 2 e outra no v. 18. Na primeira afirma-se
claramente que ela corre, já na segunda a afirmação não é explícita mas a
sua ocorrência é muito plausível. Qual de nós, sendo visitado por
alguém que ressuscitou dos mortos e nos envia a ir anunciar este
acontecimento, sai de passo lento e ponderado? Visitada de modo tão
surpreendente, não pode ser sem alguma velocidade que interpretamos a
expressão: “Maria Madalena foi”.
Ora, gostava agora que focássemos
a atenção sobre a palavra ‘correr’ usada no versículo 2 e o termo ‘vai’
dito por Jesus no versículo 17 ao enviar Maria à sua nova corrida. Por
um lado, a palavra ‘correr’ aparece no original grego (τρέχει) como um
verbo no presente do indicativo ativo.
Trata-se portanto de um ato que começa e termina no sujeito, toda a
atividade depende de Maria e está centrada nela. Maria não sabe onde
está o corpo de Jesus, desespera e corre. A ação começa e termina na sua
pessoa, nas suas questões e desejos individuais. Por outro lado, o
imperativo de Jesus a Maria Madalena – ‘vai’ – aparece no original grego
(πορεύου) com uma forma gramatical que nos pode soar muito estranha.
Trata-se de um verbo no presente imperativo da voz média. Voz média? Que vem a ser a voz média?
A
voz média é um resquício muito antigo das línguas indo-europeias que se
conservou no grego clássico – no qual está escrito o Novo Testamento.
Trata-se de uma das três vozes (ativa, média e passiva) cujo significado
tem uma grande riqueza, de difícil tradução para as nossas línguas
modernas. Comecemos por dizer que a voz passiva (ex. ‘um livro foi
comprado pelo João’ em vez da forma ativa ‘o João comprou um livro’) é
uma formulação muito tardia nas línguas indo-europeias. Mais ainda, de
acordo com os estudos linguísticos de Jean Humbert na sua Syntaxe Grecque
(1963), sabemos que a voz passiva se desenvolveu com base na voz média,
tendo causado o seu progressivo desaparecimento. Portanto, mantém-se a
pergunta, em que consiste a voz média? Pode ela ajudar-nos a compreender
as palavras de Jesus e a missão de Maria?
O fabuloso destino da voz média e a missão de apóstola de Maria Madalena
Cada
voz tem um destino. A voz ativa destina-se a colocar o centro no
sujeito, a voz passiva destina-se a dar o centro ao objeto sobre o qual
se atua; e a voz média? Para os primeiros gramáticos gregos, a voz média
representa uma convergência dos sentidos ativo e passivo, no qual a
fala que começa no sujeito entra em relação com outro e a ele retorna.
Donde podemos concluir que a voz média destina-se a colocar o enlevo na
relação iniciada pelo sujeito com o sujeito ao qual se dirige. Sim,
desenha-se como uma relação de sujeitos que, sob a iniciativa de um,
estão em colaboração.
Torna-se, portanto, digno de muita atenção
olhar com cuidado para este imperativo do Senhor: ‘ide’. Jesus manda mas
manda como quem pede. Manda pedindo colaboração, envia uma pessoa livre
que não corre por ativismo ou coação. A missão nasce do encontro
pessoal que a autoriza, que a torna também coautora do Evangelho. O
mandato de Cristo a Maria Madalena não se dá num tipo de relação
instrumental – preciso de trabalhadores para a minha causa – mas de amor
cooperativo. Há muita mais poesia nesta formulação, há mais frescura
evangélica neste modo de ler o envio do Senhor Jesus para a missão.
Eventualmente
a separação gramatical ativo-passivo fez-nos gerar uma linguagem
espiritual que nos caracterizava a nós como instrumentos nas mãos do
Senhor. Nada há de necessariamente errado nesta linguagem, mas pode
correr o risco de nos tornar em realidades passivas quando o Senhor
deseja convidar-nos à missão mediante o exercício da nossa liberdade e
não apenas das nossas capacidades executivas. Neste sentido, o envio
apostólico de Maria Madalena pode despontar como um modo de
reaprendermos três coisas:
1. Todos os
batizados, e não apenas os religiosos ou membros do ministério ordenado,
receberam a tradição apostólica em virtude de uma relação pessoal e
comunitária com Jesus Cristo no Espírito Santo;
2.
Se nos queixamos como Igreja que os cristãos têm pouco espírito
missionário não devemos olhar para as causas na falta de ativismo ou na
ausência de passividade diante dos movimentos do Espírito, mas para a
necessidade de renovarmos o exercício do nosso encontro pessoal com
Cristo que deseja encontrar-se com cada pessoa sem violentar a sua
liberdade;
3. Se sentimos que na nossa vida há
pouco lugar para os outros, para os irmãos, para os pobres e para os
excluídos, renovemos o nosso desejo de encontro com Cristo e isso
determinará tudo. Oxalá aprendêssemos de Maria Madalena a arte de
correr…
Miguel Pedro Melo, sj
Salmo 93(94)
O Senhor faz justiça
O Senhor se vinga
de tudo:... pois Deus não nos chamou à impureza, mas à santidade (cf. 1Ts
4,6-7).
I
–1 Senhor Deus justiceiro,
brilhai, *revelai-vos, ó Deus vingador!
–2 Levantai-vos, Juiz das nações, *
e pagai seu salário aos soberbos!
–3 Até quando os injustos, Senhor, *
até quando haverão de vencer?
–4 Arrogantes derramam insultos *
e se gabam do mal que fizeram.
–5 Eis que oprimem, Senhor, vosso povo *
e humilham a vossa herança;
–6 estrangeiro e viúva trucidam, *
e assassinam o pobre e o órfão!
–7 Eles dizem: “O Senhor não nos vê *
e o Deus de Jacó não percebe!”
–8 Entendei, ó estultos do povo; *
insensatos, quando é que vereis?
–9 O que fez o ouvido, não ouve? *
Quem os olhos formou, não verá?
–10 Quem educa as nações, não castiga? *
Quem os homens ensina, não sabe?
–11 Ele sabe o que pensam os homens: *
pois um nada é o seu pensamento!
Ant. Deus sabe o que pensam os homens:
pois um nada é o seu pensamento.
Ant. 3 Para mim o Senhor, com certeza,
é refúgio, é abrigo, é rochedo.
II
–12 É feliz, ó Senhor,
quem formais *e educais nos caminhos da Lei,
–13 para dar-lhe um alívio na angústia, *
quando ao ímpio se abre uma cova.
–14 O Senhor não rejeita o seu povo *
e não pode esquecer sua herança:
–15 voltarão a juízo as sentenças; *
quem é reto andará na justiça.
–16 Quem por mim contra os maus se levanta *
e a meu lado estará contra eles?
–17 Se o Senhor não me desse uma ajuda, *
no silêncio da morte estaria!
–18 Quando eu penso: “Estou quase caindo!” *
Vosso amor me sustenta, Senhor!
–19 Quando o meu coração se angustia, *
consolais e alegrais minha alma.
=20 Pode acaso juntar-se convosco †
o impostor tribunal da injustiça, *
que age mal, tendo a lei por pretexto?
–21 Eles podem agir contra o justo, *
condenando o inocente a morrer:
–22 Para mim o Senhor, com certeza, *
é refúgio, é abrigo, é rochedo!
=23 O Senhor, nosso Deus, os arrasa, †
faz voltar contra eles o mal, *
24 sua própria maldade os condena.
Ant. Para mim o Senhor, com certeza,
é refúgio, é abrigo, é rochedo.
Leitura breve
Fl 4,8.9b
Quanto ao mais, irmãos, ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor. Assim o Deus da paz estará convosco.
V. Eu quero cantar os meus hinos a Deus.
R. Desejo trilhar o caminho do bem.
Quanto ao mais, irmãos, ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor. Assim o Deus da paz estará convosco.
V. Eu quero cantar os meus hinos a Deus.
R. Desejo trilhar o caminho do bem.
Oração
Ó Deus, o vosso Filho confiou a Maria Madalena o primeiro anúncio da alegria
pascal; dai-nos, por suas preces e a seu exemplo, anunciar também que o Cristo
vive e contemplá-lo na glória de seu Reino.
Por Cristo, nosso Senhor.
Conclusão da Hora
V.Bendigamos
ao Senhor.
R. Graças a Deus.
R. Graças a Deus.
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