Artigo do Arcebispo – Brumas e catástrofes
A
chuva, dom da criação, derramada para fecundar a terra e garantir bens
essenciais, tem se tornado um pesadelo: mais uma vez, avoluma-se o
número de pessoas que perdem suas vidas e contabilizam-se os graves
prejuízos. Realidade que se hospeda no mesmo horizonte da tragédia-crime
de Brumadinho.
Causa perplexidade constatar as lições não
aprendidas, o que aponta para a necessidade urgente de mudanças de
hábitos e providências que não podem surgir de soluções apressadas, do
improviso, mas da inteligência na intuição de novos processos capazes de
promover intervenções assertivas e a necessária correção de rumos que
garantam condições adequadas para os cidadãos.
Assiste-se, no
entanto, a um “bate-cabeça” comprometedor. Um contexto de nefastas
consequências explicitadas nas falas e linguagens que revelam a
estreiteza de compreensão por parte daqueles que, por necessidade e
obrigação, deveriam projetar luzes novas, apontar rumos. Muitos,
curiosamente, movidos por interesses questionáveis, se tornam reféns de
grupos e pessoas mal intencionadas. Assim, os planos e prioridades são
definidos por critérios medíocres, próprios de quem se encastela em um
discurso desmoralizante, capaz de intimidar apenas aqueles que se
equiparam pela mediocridade. Espera-se, com urgência, dada a incidência
dos clamores, especialmente dos pobres, reação eficaz e novas respostas.
É preocupante a falta de preparo na forma de conduzir os processos,
gerando confusão, acentuando oportunismos, validando critérios inócuos, a
exemplo do que se esconde na impiedade da busca irracional do lucro,
louvado como alavanca do aquecimento e da melhora da economia.
As
brumas e as catástrofes nas evidências das reações agressivas da
natureza são o retrato desolador da falta de ações com força de
mudanças, da vagareza das soluções que pedem urgências, enquanto a
mediocridade da conservação estreita inovações para assegurar o
apequenado que se conquistou. As consequências são evidentes na
religiosidade que não consegue emitir sua profecia, órfã dependente de
discursos ideológicos e partidários; nos governos que não conseguem,
minimamente, eleger suas prioridades; nas instituições que servem mais
aos que as compõem, ao invés de fazer de seus servidores protagonistas
em ações transformadoras – incluindo os cidadãos que não conseguem mudar
nem mesmo hábitos simples e corriqueiros.
Pense-se na evidência
do lixo produzido e inadequadamente tratado. Além de agravar enchentes e
degradações, denuncia o descuido da sociedade. São estreitezas pessoais
e sociais que pesam e prejudicam a sociedade brasileira na dinâmica
mundial e no próprio horizonte nacional. Tudo isso reflete também
oportunismos, com o intuito de conquistar votos, impulsionar projeção
pessoal ou político-partidária, contracenando com rigorismos
doutrinários e disputas ideológicas assépticas, que não efetivam avanços
e atolam ainda mais a sociedade em brumas e catástrofes.
Constata-se,
de modo preocupante, a falta de estrutura moral, espiritual e
emocional, desfigurando e aprisionando a cidadania numa condição
depressiva. Muitas vezes, prefere-se não reagir e apenas viver do
cultivo de uma dor, sem buscar a cura ou tratamento adequado – a se
fortalecer para realizar grandes mudanças. Lamenta-se o cenário do
protagonismo dos profetas que se põem em defesa da verdade, enquanto os
agoureiros, até causando medo e submissão, tiram proveito para ganhar o
sustento e promoção, neutralizando reações urgentes na construção de
respostas novas. São muitas as lições, e poucas as aprendidas. Lições
que exigem a produção de nova compreensão, de novas práticas e hábitos.
Neste exigido investimento para a vida nova clamada pela sociedade
contemporânea, o horizonte da Ecologia Integral é o mais produtivo e com
força transformadora. Sem novas dinâmicas, sem a substituição de
lógicas, sem a humilde assunção de hábitos não ocorrerão as mudanças
adequadas para substituir as brumas e catástrofes que desnorteiam o
cotidiano deste tempo.
Não cabe dar as costas, produzir reações
agressivas ou antagônicas às interpelações vigentes, desenhadas na
perspectiva da Ecologia Integral – embora incomodem alguns e aparentem
ser menos importantes do que realmente são. O capítulo quarto da Carta
Encíclica Laudato Sí, do Papa Francisco, num horizonte rico e
amplo, ao abordar o entendimento sobre a Ecologia Integral, é a
impostação completa e a indicação inteligente da urgente saída que se
busca. A sociedade brasileira precisa ser tocada nos seus brios, os
cidadãos sensibilizados, pela solidariedade, no seu patriotismo. É
indispensável aos governantes, na condição de aprendizes-servidores, se
deixarem iluminar por uma nova lógica. Ao invés da rigidez que ajuda a
matar, a fé precisa ser praticada e fortalecida como conquista da
liberdade para a qual Deus criou a vida, a ser preservada em todas as
suas etapas. É preciso ter vergonha, se incomodar, trabalhando e
contribuindo na construção de mudanças fortes, urgentes, para que sejam
superadas as catástrofes e pairem as brumas do amor e das
solidariedades.
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

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